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Associação Brasileira de Musica Independente realiza sua 6ª conferência anual, em parceria com o SEBRAE.

Evento entre os dias 11 e 13 de setembro reúne artistas e executivos da indústria musical brasileira e internacional.


Primeiro dia do 6º Rio Music Market abre com visão otimista do mercado independente

A sexta edição do Rio Music Market iniciou, na manhã de 11/9, a série de debates de sua programação, que se estende até o dia 13 no CRAB - Centro Sebrae de Referência do Artesanato Brasileiro. Com mediação de Carlos Mills, presidente da Associação Brasileira da Música Independente (ABMI) – que realiza o evento em conjunto com o SEBRAE/RJ – a primeira mesa contou com a participação de Kees van Weijen (Impala | NL), Justin West (Secret City Records | CA); Darius van Arman (Secretly Group/A2IM | US); Wilson Souto Jr (Atração Fonográfica/ABMI |

BR), que discutiram os desafios da produção independente.

Apesar das dificuldades existentes, o otimismo foi a tônica das falas e todos foram unânimes em apontar um futuro promissor para o mercado indie. Carlos Mills destacou o surgimento de novas tecnologias que, em breve, começarão a ganhar espaço no Brasil: “Há uma verdadeira febre nos EUA e Europa dos smart speakers, caixinhas que você controla por voz, e que já existem em smartphones, para pedir música, informações sobre o tempo, compras etc. É uma nova forma de consumir música. Acreditamos que haverá uma revolução cultural. Em relação ao mercado brasileiro, crescemos 18% em 2017. No resto do mundo, por exemplo, a ordem foi de 8%. Há um consumo de streaming avassalador, representando quase 90% do consumo de música digital no país. São cerca de 220 milhões de aparelhos de celular. Há um potencial imenso para o futuro”, acredita.

Outra questão apontada foi a importância do mercado independente se organizar para ter representatividade, além da força do mercado local. Kees van Weijen explica: “Há muitos desafios em ser independente. É preciso paixão. O independente investe seu próprio dinheiro. A chave do sucesso é a organização desse mercado”. Wilson Souto Jr concorda: “Uma das grandes vitórias da ABMI foi o papel determinante desempenhado na aprovação da PEC 123, que permitiu imunidade tributária para a produção musical brasileira, reduzindo o preço do produto final e enfraquecendo a pirataria”. No exterior, Darius Van Arman lembra que entidades como a Merlin Network, representante dos direitos dos selos independentes, têm muita força, ajudando na negociação com gigantes do streaming como a Spotify. Ele afirma ainda que o mercado indie tem mais visibilidade do que nunca. “A única área que ainda temos dificuldade de competir é na rádio comercial. Mas, agora, o advento dos dispositivos ativados por voz significa muitas oportunidades para o mercado independente, já que mais da metade dos pedidos dos usuários é para tocar música”, esclarece.

Na mesa seguinte, os músicos Charles Gavin e Bem Gil e Michel Nath, da fábrica Vinil Brasil, falaram sobre a volta do vinil, com mediação da jornalista Christina Fuscaldo.

Com quatro anos de existência, a Vinil Brasil tem conseguido mercado: “Aqui no Brasil temos uma realidade singular em relação à situação econômica, o que acarreta uma discrepância no preço do vinil em relação aos EUA e Europa, por exemplo. Enquanto lá é possível comprar por 20 dólares ou euros, aqui um vinil oscila entre 80 e 150 reais. O disco sai da fábrica por 25, 30 reais. Mas existem as margens de lucro, os tributos. Mesmo assim, existe uma demanda”, explica Michel.

Bem Gil acredita que o valor cultural do vinil está no conceito de ‘disco’, que existe até hoje: “Mais importante do que ter sido o formato precursor que lançou o pop mundial, o vinil estabeleceu um conceito que usamos até hoje. Chamamos de ‘disco’ ou ‘álbum’ quando gravamos um trabalho, independente do suporte usado no lançamento. Comercialmente não faz sentido gravar um vinil, quando o streaming sai mais barato. A importância é cultural. Vinil é mais militância do que investimento”.

Charles Gavin lembra de quando ia para a escola e via os amigos com suas coleções de disco debaixo do braço e como isso era uma influência e definia quem você era e do que gostava. Nascido em 1960, o músico se arrepende de ter trocado em sebos muitos de seus discos, a partir da febre do CD na década de 90: “Me arrependi depois. Caiu a ficha sobre a importância do formato”. Apresentador há 12 temporadas do programa de entrevistas televisivo “O Som do Vinil”, Gavin acredita que apesar da morte da ‘bolacha preta’ ter sido decretada, a mídia nunca morreu de fato: “Seja pelos colecionadores, pesquisadores ou DJs. E hoje uma molecada prefere o vinil. Pesquisando sobre isso, li que muitos justificavam a escolha porque o vinil tem um som mais quente. E é isso: mesmo com lançamentos em plataformas digitais, há uma parcela que ainda prefere ter uma experiência mais profunda, comprando o vinil. Existe um mercado, apesar de pequeno”.

Logo após, o painel A força do rádio no Brasil reuniu Márcia Ramos Meiguice (Paradiso), Alexandre Tavares (JB FM), Suzana Masetti (Antena 1) e Alexandre Hovorusky (Nova Brasil), com mediação de Luciano Gomes (Meu Feeling).

Entre os fatores destacados pelos presentes para explicar a longevidade do rádio, a localidade, a proximidade com o ouvinte e a adaptação do meio às novas tecnologias foram lembrados durante o debate. "Estou há 30 anos trabalhando em rádio e ouçosempre que o rádio vai acabar. Mas acredito que um dos grandes trunfos é que a gente tem uma intimidade com o ouvinte que nenhum outro meio tem”, afirma Alexandre Tavares, locutor que passou por diversas emissoras cariocas.

"Meios como a TV tem um custo imenso. O rádio tem outra vantagem que é a localidade, mesmo se estiver inserido em uma rede. O ouvinte quer saber o trânsito ali na esquina, a peça que está em cartaz", lembrou Alexandre Hovorusky. Suzana Masetti completou, sobre outra singularidade do meio: "E também o rádio é um dos poucos meios que permite que você interaja ao mesmo tempo em que está fazendo outra coisa".

O primeiro dia de encontros se encerrou com a mesa que reuniu Henrique Badke (iMusica | BR), UK), Marcela Maia (Biscoito Fino | BR) e Marina Mattoso (Jangada Comunicação | BR), com mediação de Paula Martini (Martinica | BR).

O ponto principal que norteou o debate foi a importância da conceituação do trabalho no marketing digital: "Independente dos recursos que você tenha, do tamanho do seu projeto, é o conceito que você tem. Às vezes dentro da sua comunidade, alguém ali pode fazer um papel de influenciador. Se fala muito em comprar mídia, comprar mídia. É importante, claro. Mas muitas vezes vale a pena fazer um show para 50 pessoas que estão lá, que são seus fãs, que vão gerar seguidores espontâneos. Se não tem dinheiro pra pagar influenciador, esses influenciadores podem ser aqueles que estão à sua volta. A sua banda pode usar esses seguidores leais que vão gerar mais seguidores. Vamos tocar em SP pra 300 pessoas, por exemplo, e tirar fotos com, às vezes, 20 pessoas, que vão postar, vão marcar os seguidores. Isso vai gerar um fluxo real e espontâneo", enfatizou Henrique Badke.

Marina Mattoso também insistiu no planejamento criterioso como chave para um trabalho bem feito: "Cada produto/artista demanda uma estratégia específica no meio digital. Mais importante é um conteúdo de qualidade do que a quantidade. Até porque, em cada postagem (conteúdo) ruim, o ranqueamento da página é prejudicado". Marcela Maia enfatizou que “cada página tem uma dinâmica, depende do público. Um senso comum é que quarta à noite não é bom para postagens porque é dia de futebol. Mas isso não é uma regra geral. O público a ser atingido pode não ser o que vê futebol”, alerta.

Paula Martini lembrou ainda que as potencialidades de cada rede social precisam ser exploradas: “Dependendo do foco da mensagem, cada plataforma tem uma característica que pode servir para exacerbar o que se quer comunicar. O Instagram, por exemplo, pode ser mais forte quando o assunto é o que chamamos de “look at me”, com conteúdos autorreferentes. Já o Twitter pode catalisar ainda mais as postagens no estilo “look at this”, que tem um perfil de curadoria de influências, ou seja, ‘veja aquilo que eu gosto, o que curto etc”, detalha.

Nesta quarta, 12 de setembro, o 6º Rio Music Maket segue com mesas sobre o value gap, a WIN, os caminhos para a internacionalização do selo de música, os mercados emergentes mundiais e o desafio da criação artística, com a participação de nomes como Marcelo Castelo Branco (UBC), Richard Burgess (A2IM/EUA), Alison Wenham (WIN / Reino Unido), Oliver Knust (Discos Rio Bueno / Chile), Takashi Kamide (Japão), Fernanda Abreu, Moska, Délia Fischer e Nilze Carvalho.

Segundo dia do 6º Rio Music Market reúne 20 debatedores em torno de cinco temas

Neste segundo dia do 6º Rio Music Market, que acontece no CRAB - Centro Sebrae de Referência do Artesanato Brasileiro até 13/9, os debates foram abertos às 10h com o tema O abismo de valores / The value gap. Com mediação de Daniella Colla (ABMI) e a participação de grandes nomes internacionais, como Martin Mills (Beggars/WIN), Michel Lambot (PIAS /Merlin) e Richard Burges (A2MI), e o brasileiro Marcelo Castelo Branco, atual presidente da União Brasileira de Compositores, o encontro propôs um entendimento sobre o abismo de valores e a sua interferência negativa no ecossistema da música.

O ex-beatle Paul McCartney foi citado pela mediadora Daniella, que apresentou um trecho da carta que o músico escreveu apoiando artistas, gravadoras e órgãos da indústria musical sobre o tema: “Precisamos de uma internet que seja justa e sustentável para todos. Mas hoje algumas plataformas de conteúdo se recusam a compensar os artistas e todos os criadores de música de forma justa pelo seu trabalho, enquanto eles exploram isso para o seu próprio lucro”.

Apesar das dificuldades existentes, uma notícia recente animou os palestrantes Michel Lambot e Martins Mills. “Tivemos uma manhã muito feliz. Os membros do parlamento europeu votaram nesta quarta, 12, para seguir com a reforma de direitos autorais em plataformas digitais como o YouTube. Foram 438 votos a favor, 226 contra e 39 abstenções. O próximo passo serão as negociações finais do Parlamento com os países membros e, assim, a emissão de uma decisão final da Comissão Europeia provavelmente até o fim deste ano. São anos de luta, uma batalha muito grande, será uma vitória muito importante!”.

Para Marcelo Castelo Branco, essa discussão no Brasil é mais recente do que no mercado internacional, mas não menos importante. Por isso, considera já ter evoluído bastante: “Temos que encarar essa questão não só numericamente, mas também pelo ponto de vista da solidariedade. Temos obrigação, como profissional e amante da música, de equilibrar esse ecossistema.”.

O Rio Music Market levantou a discussão acerca de outro tema importante para o setor. Como internacionalizar seu selo reuniu representantes de diferentes regiões do mundo, para falarem sobre suas experiências em como trabalhar o sucesso de um artista local no mercado internacional.

Oliver Knust (Discos Rio Bueno) deu um panorama do que acontece em seu país: "O Chile é pequeno, um país precário em termos de economia. Temos boas bandas e queríamos que elas fossem para o mercado exterior. Conseguimos um suporte do governo, um pequeno investimento, mas que possibilitou iniciar o processo de internacionalização."

Louis Posen (Hopeless Records / EUA) destacou os pontos importantes no processo: "Encontrar pessoas que você possa confiar, um parceiro disposto a representar, que compartilhe dos mesmos valores, fazendo a coisa certa para a nossa reputação. E que o amor pela música seja a grande motivação para o parceiro escolhido. Essa é uma das experiências que tive com o objetivo de internacionalizar."

"Primeiro é preciso entender e ter acesso à comunidade global. Encontrar os colaboradores corretos. Se você quer exportar, essa decisão envolve muitas variáveis. Avaliar a capacidade da empresa, o processo de licenciamento e distribuição, colocando o artista sempre em primeiro lugar”, completou o canadense Justin West.

O Rio Music Market trouxe para esta sexta edição representantes de três novos mercados: Coreia do Sul, Japão e Nova Zelândia. Com números impressionantes, os dois países asiáticos mostraram que têm fôlego para mais crescimento, assim como a Nova Zelândia. “O mercado neozelandês está crescendo. Do total, 62% é atualmente dominado pelo streaming. Tivemos 1.333 shows, de 94 artistas em turnês por 41 países, mas não estivemos ainda na América do Sul. Temos muito interesse pelo mercado brasileiro”, revelou Dylan Pellett, gerente geral da IMNZ, associação dos selos independentes da Nova Zelândia.

Takashi Kamide, veterano da indústria musical japonesa, lembrou que o país é o segundo mercado de música no mundo e o primeiro na Ásia. Lá, os independentes têm 64% de participação. Com uma população de 127 milhões de pessoas, o Japão tem 170 milhões de celulares, que atingem 72% da população. “Em dez anos, a partir de 2008, o mercado cresceu de 57,8 bilhões de ienes para 68 bilhões, em 2017”, enumera. Amazon Music, Apple e Spotify dominam o mercado de streaming no Japão.

O sul-coreano Chan Kim, da gravadora independente Fluxus, também revelou os números de seu país. São 57 milhões de celulares para 51 milhões de habitantes, o que corresponde à impressionante marca de 94% de penetração do aparelho na população de lá, a mais alta no mundo. Em gravações, é o segundo mercado asiático e o sexto mundial. Outra marca expressiva se refere a participação dos independentes, com 89% do mercado, novamente a taxa mais alta no mundo neste segmento. “Temos um forte mercado local de música. Grandes empresas da Coreia do Sul dominam diversos segmentos, como a Melon, líder em serviço de música digital; ou a Kakao Talk, com 94% de participação no serviço de mensagens. Assim como o Naver, portal de internet com 75% do mercado, à frente da Google, que tem 11%”, detalha. “O mercado da Coreia do Sul ainda crescerá muito nos próximos cinco anos. Spotify não chegou por lá ainda. E a Apple Music, apesar de já ter chegado, ainda não tem o catálogo das grandes locais”.

Os desafios da criação artística foi o tema que reuniu os compositores Délia Fischer, Fernanda Abreu, Moska e Nilze Carvalho, com mediação de Elisa Queirós, da ABMI. Cada um contou um pouco sobre o seu processo de trabalho e como ele foi afetado com os novos rumos do mercado musical.

“Quando a gente começou, só existia o vinil e a nossa expectativa era ser contratado por uma gravadora. Ver a transformação disso tudo, com as novas tecnologias, isso também faz parte da nossa criatividade, em como lidar com tudo isso. O processo criativo está intimamente ligado à maneira como vejo o mundo”, aponta Moska sobre como a sua visão da realidade molda seu processo criativo e o resultado de sua produção.

Délia Fischer acredita que o grande desafio tem sido “transmutar e perpassar as várias facetas da minha trajetória para me ater, no fim das contas, ao que mais gosto, que é fazer música, fazer o que quero, sem me limitar ou me enquadrar em determinados segmentos”.

Nilze Carvalho concorda e enfatiza a importância da pesquisa em seu processo: “Na verdade não tenho um processo fechado, depende muito da situação. Às vezes me dão uma letra para musicar, outras vezes, divido o processo, como era no Sururu na Roda, grupo onde fiquei por 15 anos. Mas sempre gosto muito de pesquisar e puxar uma música lá de trás.” E a tecnologia foi novamente lembrada: “Hoje usamos muito a tecnologia em nosso trabalho. Edito muito em casa. Ainda não me atrevi a fazer mixagem, mas já faço edição há algum tempo. Como nunca estive em uma grande gravadora, sempre fui muito atrás de todos os processos. Agora estou enveredando na produção de trabalhos de outros colegas”, revela.

“Minha música sempre foi muito urbana, me interessa e me alimenta o que vejo, um outdoor, a rua, um casal brigando ou se beijando, é a vida, o dia a dia das pessoas na cidade, é uma coisa que me interessa muito”, conta Fernanda Abreu. “Hoje temos muita coisa para pensar. A gente tem que entender de Instagram, de Spotify, tem sempre que ir se adaptando. E isso também se reflete no trabalho e no processo de criação”, completou.

No último dia, o Rio Music Market abordará temas que vão do licenciamento internacional ao mapeamento e divulgação da produção independente, com oficinas sobre como falar em público e ainda uma conversa sobre biografias musicais com quatro escritores que atuam neste nicho.

Rio Music Market encerra sua sexta edição com visão positiva sobre o futuro da música independente

O terceiro e último dia do 6º Rio Music Market, que aconteceu no CRAB - Centro Sebrae de Referência do Artesanato Brasileiro, manteve o tom otimista que marcou a abertura do evento, com prognósticos positivos sobre os caminhos da música independente no Brasil e no mundo, as plataformas digitais e os direitos autorais, apesar do longo caminho a ser ainda percorrido pelos artistas e pequenos e médios selos de música.

O cenário para licenciamentos internacionais foi o tema do primeiro debate, reunindo Cris Garcia Falcão (Fermata), Peter Strauss (UBC), Jim Mahoney (Merlin) e Saulo von Seehausen (BMG), com mediação de Charlie Phillips, da WIN. Gerente geral da Merlin, agência internacional que representa os direitos dos selos independentes no mundo, Jim Mahoney lembra do cenário musical quando a entidade foi criada, há dez anos: “Nós percebemos que se quiséssemos ser respeitados e tratados como as grandes companhias, precisávamos nos organizar, nos unir. Hoje são mais de oitocentos membros que representam dezenas de milhares de selos em 53 países. Operamos de uma maneira totalmente transparente, sem fins lucrativos”, explica.

Há 14 anos na editora Fermata, criada em 1954, Cris Garcia Falcão está otimista com os processos ligados à edição e direitos: “Nos últimos cinco anos passamos a ter mais facilidade para a informação chegar mais rápido quando recebemos um novo trabalho. Temos mais agilidade, mais facilitadores, mas a gente sempre exportou. O que acontecia é que eram sempre os mesmos artistas. Hoje queremos ampliar esse catálogo. É um processo contínuo para mudar e diversificar esse panorama”. E completou: “Há várias outras formas de explorar o mercado independente. As pessoas ficam muito focadas no mercado de música digital, mas existem as trilhas sonoras de filmes, por exemplo. Procuramos diversificar, o que ajuda a divulgar o artista e sua música e, consequentemente, a remuneração de seus direitos".

Peter Strauss lembrou que “não podemos nos esquecer das fontes tradicionais como rádio, TV, trilhas de filmes, séries, que são uma ótima fonte de rendimento. A estrutura hoje é melhor para a exportação da música brasileira. Haverá sempre interesse nos estilos mais tradicionais, como a bossa nova, mas há um potencial grande, há um intercâmbio maior entre os países da América do Sul. O licenciamento na gestão coletiva tem suas particularidades, baseado nos contratos de representação das entidades internacionais. Nossa preocupação é garantir que o artista tenha seus direitos autorais garantidos e recolhidos, já que a legislação muda com muita velocidade e precisamos estar atentos. Como a lei votada há alguns dias no parlamento europeu, sobre o YouTube, por exemplo. Os compositores sempre têm uma expectativa alta de recebimento de direitos do exterior. Mas depende do tipo de uso que está sendo feito da obra dele, como cada território trata cada um desses usos, uma série de variáveis. Nossa função é também explicar aos autores essas peculiaridades. De qualquer forma, hoje as oportunidades são melhores para os artistas brasileiros".

Saulo concordou: “Historicamente, a gente negligencia muito a América Latina. Temos muito que crescer nesse território, que é, afinal, o mercado no qual estamos inseridos. O poder de escolha é uma conquista bem recente. Acho que é um momento ótimo que temos pela frente. Temos a oportunidade de colocar um artista midstream tocando na Austrália, por exemplo, dando a ele a oportunidade de ter uma carreira, de poder se dedicar exclusivamente à música".

No painel sobre o Mapeamento e divulgação da produção independente, Roberta Dittz, da banda Canto Cego, falou um pouco das dificuldades e da persistência necessária a quem está começando na música: “"O primeiro desafio de um artista é, a partir de sua paixão pela música, estudar, se aprimorar, formar uma banda. Aí vem o desafio de tocar, achar lugar, entender tudo o que envolve. Não conhecia as leis, os editais, as secretarias de cultura. É muito difícil para o artista vender sua própria arte. Uma parte crucial é se juntar com a cena local, com outras bandas. Depois vem as gravações, primeiro de forma caseira, no YouTube, no Soundcloud. Aí conseguimos um estúdio profissional e fomos melhorando a qualidade. Mas não existe uma fórmula mágica pra quem está começando. Temos que atuar em todas as frentes".

Léo Feijó, subsecretário da Secretaria de Estado de Cultura do Rio de Janeiro, falou sobre a parceria com o SEBRAE e a plataforma de música digital Deezer, representada no debate por Bruno Vieira: “Abrimos uma chamada pública para bandas de todo o estado se inscreverem no projeto O som do Rio. A ideia é atingir 1.840 artistas dos 92 municípios com 3.600 músicas. Muitos dos artistas que participaram do projeto não estavam com suas músicas nas plataformas digitais. SEC-RJ, Deezer e Sebrae/RJ vão mapear e divulgar produções de artistas fluminenses via streaming em 92 playlists oficiais, uma para cada município, disponibilizadas na plataforma digital”.

“Hoje há um hiato entre o artista independente e as plataformas digitais. Por isso essa parceria tem sido importante para trazer esses artistas. A Deezer é uma plataforma com mais de 53 milhões de músicas mas precisamos ampliar o interesse do usuário por essa diversidade para a própria sustentabilidade do negócio a longo prazo, para que o público não fique restrito a 1% desse catálogo”, alerta Bruno.

Sobre as Oportunidades de sincronização e execução pública, o Rio Music Market reuniu Claudio Lins de Vasconcellos (SICAV), Daniela Colla (ABMI), Carlos Mills (ABMI) e Elisa Eisenlohr (UBC).

Claudio resumiu em seis fatores porque a música brasileira é um excelente investimento: O mercado musical brasileiro tem um potencial gigantesco para investimento, que pode ser resumido no acrônimo VIHMAIS: Vocação, que temos de sobra, como um dos mercados musicais mais relevantes do mundo por sua qualidade artística; os capitais Intelectual (já que a música é a riqueza brasileira de maior visibilidade internacional, além dos commodities e empresas como Embraer e Embrapa) e Humano (uma vez que a criação cultural nunca será substituída por robôs ou por inovações tecnológicas); o Meio Ambiente, pois o investimento na música representa baixíssimo impacto e risco para ele; a Resiliência, que mantém a produção musical forte, independente das circunstâncias econômicas desfavoráveis; e a Soberania cultural, que é a capacidade de influenciar a geopolítica mundial, sem recorrer à força militar ou sanções econômicas. Isso tudo o mercado musical brasileiro tem de sobra, o que representa excelente motivo para o investimento da iniciativa privada neste setor".

Daniela Colla falou um pouco sobre o projeto de parceria entre a ABMI e a SICAV: “Costumo dizer que a música é o coração da economia criativa. Não se pode dissociar a música do conteúdo audiovisual, por exemplo. Precisamos ter mais agilidade no licenciamento de uma obra audiovisual. Autor, editora, fonograma (produtor fonográfico), intérprete estão envolvidos nesse processo. Uma obra pode ter três compositores, que, por sua vez, podem ter editado em três editoras diferentes. Daí podemos ter uma ideia da quantidade de envolvidos no processo e nas dificuldades que isso gera. Assim pensamos em unir os produtores fonográficos com os produtores audiovisuais, unindo as duas pontas para otimizar essa via. Essa relação pode ser estreitada através desse convênio entre a ABMI e a SICAV, facilitando o licenciamento, quando existe, principalmente, várias titularidades na obra”.

Elisa explicou sobre o papel e a importância da UBC para a arrecadação dos direitos para os artistas: “A UBC faz gestão coletiva de direitos autorais. Ao se cadastrar, o artista nos dá um mandato para fazer as cobranças desses direitos. Existem três tipos de utilização da obra musical: reprodução (CD e outros suportes), sincronização (quando a obra é inserida em um produto audiovisual) e a execução pública (shows, TV, rádio, cinema etc).” O ECAD distribuiu, em 2017, 1,2 bilhões de reais para 259 mil titulares, o que representa um aumento de 4,6 vezes ao longo de dez anos. E 55,4% desse valor foi através da UBC. Também deste total, 60% foi oriundo da exibição pública do audiovisual, um grande nicho para o compositor arrecadar”.

Quatro grandes nomes da produção musical, Liminha, Mayrton Bahia, Kassin e Arthur Maia, além da participação especial do DJ e produtor Memê, com mediação de Carlos de Andrade, subiram ao palco do auditório do CRAB para participar do painel Produção Musical, apresentado pela Áudio Porto.

“Durante 12 anos como diretor artístico da Warner, usávamos critérios diversos para escolher um artista, como a qualidade das letras, o carisma do artista. Hoje em dia ficou muito mais barato gravar, com o uso dos computadores, e divulgar, com a internet. Toda essa relação mudou totalmente”, resumiu Liminha.

Kassin contou que o que o inspira é pensar de trás para frente, tentando imaginar o resultado final para aí pensar no que e como fazer: “Penso onde aquela música poderia tocar, quem vai ouvir, a história do artista. Isso me ajuda a planejar como vai ser a gravação e o processo fica mais rápido”, revelou.

Carlos destacou que “a música para o brasileiro é um fator identitário muito forte. Em uma pesquisa realizada em 2006, 64% dos entrevistados alegaram que o que mais dá orgulho em relação ao Brasil é a sua música”.

O último debate desta sexta edição do Rio Music Market tratou das Biografias Musicais, com a participação dos autores Chris Fuscaldo, Paulo César de Araújo, Rodrigo Faour e Sérgio Farias, com mediação do professor Julio Diniz (PUC Rio).

Todos os quatro foram unânimes em relação às enormes dificuldades para a pesquisa no Brasil, ao contrário do que acontece no exterior, onde a preocupação com a memória e a preservação da cultura tem outra relevância. Chris Fuscaldo, jornalista, escritora e cantora, contou que sua pesquisa sobre o grupo Mutantes e o cantor e compositor Zé Ramalho, dois dos seus biografados, dependeu muito do depoimento de pessoas que conviveram com eles. “O Zé, por exemplo, ficou durante muitos anos sem aparecer na imprensa, havia um grande hiato, o que dificulta o processo”.

Paulo César de Araújo, que enfrentou processos de Roberto Carlos e a proibição dasvendas de seu primeiro livro sobre ele – o que deu origem a uma enorme polêmica que polarizou a sociedade e a classe artística –, está finalizando seu terceiro livro sobre o artista, para concluir a trilogia iniciada pelo livro lançado em 2006. “Quando escrevi ‘Eu não sou cachorro, não’, toquei em temas delicados dos biografados como o assassinato da mulher de Lindomar Castilho, que rendeu a este 12 anos de prisão, e a homossexualidade de Agnaldo Timóteo. Mas ambos gostaram do livro, disseram que foram tratados com respeito. Recebi carta do Lindomar e o próprio Agnaldo foi à noite de autógrafos, levando dois livros. Pensei, então, que, com Roberto Carlos, uma pessoa tranquila, sem maiores questões, seria mais fácil. E deu no que deu. Primeiro, foram 15 anos tentando entrevistá-lo. Nunca me disseram não: ou ele estava viajando, gravando. Em compensação, entrevistei todos à volta dele”. E resumiu: “Meu objetivo ao fazer uma biografia, como historiador, para além da vida e da obra desse artista, é ajudar a todos nós a entender uma determinada época”.

Sérgio Farias revelou que, em sua experiência com biografados estrangeiros, sentiu mais facilidade porque são mais abertos para entrevistas: “Na biografia do baixista Peter Tork, do grupo The Monkees, lembro que ouvi, com surpresa, de sua primeira ex-mulher, revelações de sua intimidade, como o fato de ter se envolvido simultaneamente com três músicos, antes de conhecer Peter, e de um relacionamento a três, envolvendo o Peter. “Isso é quase impensável no Brasil. Aqui há muita hipocrisia, um falso puritanismo. Lá, isso é tratado como uma coisa normal”.

O jornalista Rodrigo Faour, que está escrevendo seu sétimo livro e já biografou artistas como Cauby Peixoto, Ângela Maria, Claudette Soares e Dolores Duran, contou que teve experiências bem diferentes em cada um dos casos. Da dificuldade em saber dos fatos da vida de Ângela durante um longo período de sua vida, entre as décadas de 50 e 70, às facilidades no trato com Claudette, que tinha absolutamente tudo guardado e documentado: “A grande questão quando estamos biografando um artista vivo é saber filtrar o que ele fala. Muitos floreiam a própria história, outras vezes é a própria memória que os trai, outros querem omitir uma série de fatos. O mais importante é reunir essas informações à pesquisa e às entrevistas com pessoas que conviveram com o artista, para conseguir um apuro maior desses dados”, explica.

O professor Julio Diniz resumiu o painel destacando que “as biografias são um serviço precioso porque são registros de uma época por um viés que não está nos livros de história”.

6º Rio Music Market

Realização: ABMI | SEBRAE | CRAB | Estrombo

Patrocínio: Merlin e UBC

Apoio: WIN | Mills Records | Keychange | The Orchard | Atração Fonográfica | iMusica | Spotify | Crowley | Áudio Porto

Divulgação: LUPA Comunicação

www.riomusicmarket.com.br